sábado, 2 de novembro de 2013


tonta, mas eu tento
boba, e nem bebi
perdida, nem lembro mais o que perdi
(tava tudo aqui!)

sim, sei que sou só

mais
(do mesmo)
(nós mesmos)
(quantos nós em nós mesmos)
(nós menos)
(mais ou menos)
(mais uma no meio)

Mais humanos
(Mas humanizei)
Mais um ano? Eu sei.
Mais zoom!

E foca no que fica.

sábado, 12 de outubro de 2013

Pueri Lux


E agora essa luz laranja
metamorfoseando minha rua

girando, ciranda, criança
esconde teus olhos sob a franja
sorrindo, liberta, esperança
que o mundo te construa

devolve, infância, devolve
o tapete de flores amarelas
que a memória ainda envolve
embrulhado em fragmentos aquarelas

e agora esse alaranjado
queima e sufoca a mente
é estrela cadente
pensamento calejado

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Pater Noster qui es in caelis...


Uma visita ao Museu de Arte Sacra me fez perceber que há muito tempo eu não entrava em uma igreja. Talvez por esse nunca ter sido um hábito familiar. Talvez por medo de não saber como me comportar corretamente. Ou talvez pelo simples fato de que igrejas católicas são construídas e projetadas com um objetivo claro: fazer as pessoas sentirem-se ínfimas e microscópicas diante de um profundo olhar superior.

O fato foi que, por alguma razão, resolvi me dar uma chance naquela tarde, e entrei na Capela Frei Galvão, que é anexa ao museu. Não era hora de missa. Não haviam padres no altar, nem na nave. Reparei em alguns poucos fiéis ajoelhados no genuflexório. Crianças corriam entre os bancos. Um casal jovem tirava fotos dos ricos detalhes da abóbada. Previ uma atualização no instagram com hashtags do tipo: #sagrado e #instaholy. Abafei a risada. Algumas senhoras acendiam velas e dirigiam olhares de censura em direção às crianças e ao casal. Seus rostos enrugados e cansados mostravam ao mundo o quanto elas eram ungidas e imaculadas, apenas pelo fato de colocarem fogo em um cilindro de cera aos pés de um altar vazio.

Fiz o sinal da cruz. Sentei-me. E percebi que não sabia o que pensar, nem como agir. Rezei um pai-nosso e uma ave-maria, como se isso me redimisse de algum pretenso pecado, e continuei sentindo-me no lugar errado. Meus pensamentos novamente começaram a bater asas e quando dei por mim, repetia o pai nosso em latim, ininterruptamente.
Sim, aprendi o pai-nosso em latim em algumas aulas que fiz na faculdade, e gosto de repeti-lo, não por devoção, mas por que acho bonito e sonoro.

Achei que já tinha ido longe demais e saí dali pensando que, assim como uma estudante de intercâmbio chinesa, que não entenderia o significado de nenhuma daquelas imagens e palavras sagradas, a maioria de nós, ocidentais, também não compreende. Eu, pelo menos, sei que não.

Aquelas imagens não despertam em mim mais do que curiosidade. Elas não me tocam profundamente, nem me fazem sentir fé ou esperança. Encontro fé e esperança em outros lugares. Lugares muito mais amplos e arejados do que sob as redomas escuras e claustrofóbicas das catedrais apostólicas romanas. Não me entendam mal, o ambiente das igrejas católicas, pra mim, tem um apelo quase antropológico. Vejo-as também como museus. Como retratos vivos de comportamentos que continuam fortemente arraigados na sociedade.

Definitivamente, adoro construções suntuosas e antigas. E isso inclui as igrejas. Mas gosto com o apreço de um arqueólogo que encontrou uma artefato raro. Gosto de olhar os detalhes, de analisar comportamentos e reações, de ouvir os sermões e encontrar contradições, de tentar encontrar sentido nos textos escritos em latim pelas paredes... Gosto de me sentir como Indiana Jones em busca do santo graal.

O quão errado será tudo isso, vindo de uma pessoa chamada "Cristiane de Jesus"? Ou o quão certo? 

domingo, 1 de setembro de 2013

Metalinguístico


O grande temor de todo aspirante a escritor é uma pagina em branco com as palavras "Tema Livre". De cara vem o bloqueio. Livre? O que é ser livre? Como posso expressar essa suposta liberdade se tudo já foi pensado, dito e escrito antes? 

Não há mais verdades, todas elas já foram ditas. 
Não há mais realidade, toda ela já foi filtrada e exposta. 
Não há ideologias próprias e/ou inéditas. Somos uma reprodução de ideias. 

Dialogamos com tudo o que já foi dito. Nada é inteiro, nada é puro. Nada é meu. Nada é seu. Vivemos em comunhão com a humanidade inteira e com todo o passado histórico humano. 
O mundo é um. Uma única mente. Uma única história. Um único coração, pulsando. 

Ser autor é uma ilusão. O que é original é o modo que o sujeito "recorta" e "cola" o discurso vigente e transforma de seu modo. O "eu" está aí. No rearranjo do que já existia. Que logo também será "re-rearranjado". A sua formação ideológica delineia a sua formação discursiva. 

O desafio está ali, rindo de você, escancaradamente. Tema livre! Venha e ouse escrever o que está na sua mente! Seus sentimentos mais profundos, suas tristezas, suas alegrias, decepções e glórias. Ou, se você não tiver coragem para tanto, quem sabe uma dissertação sobre economia? Sobre o aquecimento global? Porque não?

Escrever é uma dor e um prazer. No momento em que o lápis corre pela folha, livremente, tentando acompanhar a velocidade do pensamento, você experimenta sensações e emoções novas que nem sabia que moravam em você. 

E depois que acontecer uma vez, você vai buscar esse sentimento novamente. É como um vício. Você precisa daquela sensação de poder e calma. De força e doçura. De inquietação e paz. Porque escrever é tudo isso, simultaneamente. 

Comecemos então, do começo, para, quem sabe um dia, alcançarmos um final perfeito.  

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Ressonância Ultramagnética


Aproximadamente 5 centímetros é o espaço que tenho entre o meu nariz e as barras dessa gaiola. Observo o meu corpo decapitado através do reflexo de um espelho devidamente posicionado acima dos meus olhos, para que eu não tenha a bizarra ilusão de que estou morta e enterrada.
O que seria, no mínimo, curioso, já que uma horda de robôs alucinados marcham em protesto dentro do meu cérebro.
Em todos os timbres e volumes.
Barítonos, agudos e graves.
Todos fora de tom e melodia.
Ao fundo, o grande relógio azul de pêndulo, que costumava tiquetaquear na sala da casa da vovó, insiste em pendular, eternamente. 
Os robôs se enfurecem diante da minha imobilidade forçada e gritam cada vez mais.

Silêncio. Martelos. Silêncio. Sirenes. Silêncio. Vibração.

Apesar de não poder vê-la, ainda posso sentir a seringa presa à veia da minha mão. Agora o líquido já deve estar todo circulando dentro de mim. Estranhamente, ou não, meus pensamentos nunca antes foram tão claros. Ou assim me parecem.

Imagens desfilam e dançam diante de meus olhos, como slides projetados em sequência.
Rápidos.
Cada vez mais rápidos.
E belos.
Vovó. Seus olhos azuladamente nublados. Como o céu do parque. A lona. O circo. O livro lido pela metade. Uma bicicleta voando encerrando um ato. Abrem-se as cortinas apenas quando as luzes do palco se acendem. Mas o show deve continuar. O vão entre o trem e a editoração de livros da área do Largo Santa Cecília. Mário e Oswald me fizeram acreditar nos sinais, nos instrumentos e nas estrelas. "Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada". "We'll run where lights won't chase us, hide where love can save us, I will never let you go... tãããnããnãã..."


[SILÊNCIO]


-TÁ TUDO BEM?

(!)...

- AHAM.

- JÁ ESTÁ QUASE TERMINANDO, OK?

- TÁ BOM!


As bruxas más de todos os pontos cardeais se encontram nesse furacão de sensações controversas.

"There's no place like home", Dorothy once said. But where's home? She keeps asking herself, endlessly. Where's home?